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Terra
La Coctelera

Egípcio Voador

Impossível. Algo deve estar errado. Deixa-me colocar outra vez.

É verdade. Confere. Pela quarta vez.

Nem boletim meteorológico seria tão rigoroso em relação à temperatura.

E ainda acrescento que a visibilidade está péssima.
Agora entendo o que significa não poder se mexer. Não consigo mover nem o globo ocular. Doeu só de pensar em globo. Lembrei daqueles globos giratórios. Girar é a última coisa que me arrisco. A sequer imaginar.

E eu que me julgava tão imune. Agora aqui estou com esse calor todo. Vasodilatação acho que seria o termo correto. Quando me olho no espelho só esta palavra cabe.

Vasodilatação. Doeu de novo. Porque dilatar implica em movimento. Olhar no espelho. Até parece que tenho feito isso. Só se aqui tivesse um daqueles espelhos "motelianos", no teto. Aí sim, eu poderia me ver. Com esse "motelianos" deu pra sentir que estou nada bem. Mas graças aos céus que pensar não precisa de movimento físico. Senão nem isso faria mais.

Pior é ficar aqui imóvel. Recordando. Todos os tipos de movimento existentes no mundo. Deve ter algo a ver com Sade. Essa situação toda. Lembrei dos malabaristas. Trapezistas. Comedores de fogo. Contorcionistas.
Acho que estou com delírio circense. Era só o que me faltava. E nunca gostei de circo.
Agora é só o que me ocorre. Nada mais interessante para pensar.

Ele está tão angustiado. Por me ver assim.
Rubra-tórrida-imóvel.
Ele fica acordado quase toda a noite. Para ver se preciso de alguma ajuda. Está muito sem saber o que faz. Finge que está tudo bem. Até mais do que eu. Que estou fingindo que nem está acontecendo. Que a minha imobilidade é opcional. Ele nem sabe mais por onde começa o dia. Nem acaba a noite. Ou o contrário.
Sei lá mais eu.

E essa coisa de pensar em tempo também doeu. Lembrei dos movimentos dos ponteiros do relógio. Só não quero mesmo é ter que me mover. Estou fazendo agora um estilo hindu. Buda e eu estamos na mesma. Sorri meio amarelo. Mas, ao menos, sorri.

Lembrei do Egito. E pensar que sempre adorei o Egito. Região cheia de mistérios. Estilo megalomaníaco. A maior Biblioteca. Os maiores enfeites de deserto. O mais belo rio. A mais bela rainha. Tanta admiração. Tanta sabedoria. Não posso negar. Continuam na mesma linha. É verdade. Repensando. Nada mudou. Algo tão pequeno. Causando efeito tão estrondoso. E com sobrenome egípcio. Só pode mesmo ser da mesma linha de lá.

Acho que vou colocar de novo. Já estou viajando longe. Na imobilidade. Viva a memória. E a imaginação. Quarenta. Quarenta graus. É. Agora está mais que explicado.
Temperatura e estilos egípcios.
Só espero não virar múmia.

Consegui rir de novo. Essa de virar múmia foi terrível. Quarenta graus são mesmo complicados.
Nem vou contar a ele isso. Ele saiu tão preocupado. Melhor dizer que tudo está na mais perfeita e antitérmica ordem.
Estou mesmo preocupada comigo. Isso é lá metáfora que preste.

Mas como me dói tudo por aqui. Se me pedissem, mostrava um por um dos componentes do meu esqueleto. Todos estão a me dizer "estou aqui". Os ossos. E como sinto. Sinto os músculos que os recobrem. Também um por um. Nem sabia que tinham tantos.

Agora até da mega-bela-rainha me lembrei. Ela e sua escrava fingida. Depois ela e sua escrava fiel. Depois ela e sua picada de cobra.

Melhor esquecer um pouco do Egito. Lá tem camelo. Não deve ter nada que sacuda do que subir num camelo. Agora sim. A dor não vai passar. Com este pensamento.

Tanto antagonismo é mesmo surpreendente. Uma letrinha e pronto. Mudança de dócil à dor. Um inseto. Um país inteiro ao dispor. Tantos músculos e ossos a compor um corpo. E a imobilidade. O que mais se consegue próximo a conforto. Isso está parecendo poesia de repentista. De "repentista" aqui só o sono. Que está chegando forte.
Já está na hora dele voltar para casa.

Quando ele voltar vou estar acordada.
Vou me consertar na cama. Arrumar as ataduras. Digo, camisola.
Guardar a tocha. Digo, termômetro.
E sorrir bem tranqüila.
Quando ele voltar quero estar melhor. Bem melhor.
Com as letrinhas no lugar certo.
E as idéias e a temperatura menos áridas. Digo, tórridas.
Ele odeia deserto. Gosta do mar.
Quando ele voltar vou estar com jeito de praia.

Que barulho estranho.

Quando ele voltar... eu ... vou ...

Idéias Transitórias

Por que será que me dá sempre vontade de escrever quando estou no trânsito. Um borbulhar de idéias.

E o pior é que o trânsito está mais que lento.

Não inventaram volante com micro acoplado. Apertava o botão e eis um teclado feliz aguardando ser tocado.
Teclado tocado foi até interessante. Não falei. Só tenho idéias no trânsito. Quando chego num lugar que posso expor some tudo. Parece mágica. Nem uma ideiazinha vem à mente.

E o teclado que poderia ser tocado fica solitário de dedos.

Ele pensa mesmo. Acredita. Que pode passar entre dois carros neste espaço tão exíguo. Desconsidera. O que falou que dois corpos não podem ocupar um mesmo espaço ao mesmo tempo. Não lembro. Mas quem falou se horrorizaria com o erro. Está me parecendo que não só dois corpos podem como três. Ao menos é o que procura demonstrar imediatamente. O rapaz da moto. Pronto. Lá se foi o retrovisor. Do carro ao lado. Odeio brigas.

Ele adora brigar no trânsito. Diz que não. Mas já vi de perto. Ergue os braços. Fala alto. Fica sério. Não fossem os vidros fechados e a dificuldade que ele tem em encontrar o botão elétrico certo, uma nova linhagem teria já sido publicada. Parece do juizado. São tantos os filhos que ele denuncia como de mães perdidas. Parece que a paternidade foi abolida de vez. E as Instituições para deficientes mentais. Muitas mais seriam construídas. Além do juizado ele também é do serviço de psiquiatria. Reconhece e dá o laudo em segundos. E isso dito em voz de tenor. Convence até ao relutante diagnosticado.

Sorri solta. Me arrependi. O motorista do lado me olhou. Temeroso e seduzido. Vai ver está pensando que sorri para ele.

E eu não quero sorrir para ninguém. Só quero um teclado acoplado ao volante. Para não perder a minha chance criativa.

Ele fala que sou criativa. Adoro quando ele fala isso. Me sinto genial. Vem rápido a vontade de escrever. De me publicar.

A fila está enorme para atravessar a avenida. Não entendo porque. O trânsito parado. Tantos esperar o sinal ficar verde.

As pessoas estão sempre esperando sinal. Para tudo. Para sentar. Para levantar. Para perguntar. Para responder.
Podem avançar, recuar. Mas vivem trocando os sinais.
Agora lembrei de mim. Costumo fazer isso. E ainda chamo de desobedecer ordens.

Me faço de rebelde em atividade. Ri de novo. Desde quando desobedecer ordens é trocar os sinais. Isso daria uma boa questão filosófica. Para ser escrita.

Como não tem micro aqui no carro vou acabar esquecendo.
Micro acoplado em volante nem opcional deveria ser. Deveria já fazer parte. Como pneus. Freios.

Ele me contou que dia desses estava dirigindo e pensando. Na auto-biografia. E em Inglês. Detalhava o passado em meio ao idioma estrangeiro. Talvez como estrangeiro se sentisse. Na revisão da própria vida.
Todos nós acabamos estrangeiros. Diante do nosso passado. Melhor pensar nisso com mais calma. Quem sabe está nascendo um novo texto. Que falta que está fazendo o micro no trânsito.
Que desperdício de pensamentos.

Comecei a rir de novo ao lembrar dele. E da auto-biografia. Nada a ver com a Lingua-mãe.
Essa coisa de rir no carro está ficando complicada. Ele me olhou de novo. Só falta agora pedir meu cartão. Ou me dar o dele.

Meu cartão agora tem o sobrenome dele. Deu para enganar ao mundo. É repetição. E agora me pego lendo o meu próprio cartão só para ver o nome dele ligado ao meu.
Acho que estou ficando com problema de lugar. Ri. Estou ficando. Quando foi que não tive. O problema. Não o lugar. Lugar sempre foi meu problema. Quanta confusão. Tudo porque não tenho micro aqui.

Ainda bem que o trânsito deu uma melhorada. Posso acelerar para chegar em casa. E ir correndo escrever. Todas as minha idéias.

Se elas se disfarçarem em silêncio, ou o silêncio se disfarçar em idéias, vou ficar muito brava.
Vou acender um incenso. Pode ser que o Universo me ilumine.

A conta da luz!

Acabo de lembrar. Não paguei. Pronto. Belo pulo que dei no carro. Ele agora deve estar pensando que faço sexo em banco vibratório. Já até me olhou diferente.

Estou no carro. Na rua. Com o trânsito parado. Vou querer trocar. Um banco vibratório em vez do volante ao micro, Serviria mais. Para esse outro tipo de idéia que está me ocorrendo.

Enfim o trânsito andou e ele sumiu. Deve ter virado a esquina. Hoje terá assunto para comentar com a mulher. Sim. Tinha a maior expressão de homem casado. Que busca assunto na rotina para se fazer novidade.
Coitado. E ela deve escutar pensando.
As novidades dela - ela não pode contar.
Sim. Ele também parecia com isso.
Ri de novo pelo pensamento maldoso.

Ri na hora errada.

Ou o pensamento é que estava errado.

Não fui eu quem estava desatenta. Foi ela. Veja bem o estrago que fez. Já é a terceira vez que fazem isso. Nestes dois meses.

Lógico que a senhora vai arcar com os custos. Ainda me chama de desaforada. Já me disseram, obrigada. Vou ligar sobre o orçamento.

Só me faltava essa.

Lá se vai agora uma semana de carro em oficina.
E eu sem as minhas idéias transitórias!

Frango Frito

Melhor fingir que não estou vendo.

Quem sabe, não está mesmo acontecendo. Eu que ando insegura. Não desta vez. Não. Ele está olhando mesmo. Só me faltava essa agora. A esta altura da vida. Ser vigia do olhar dele.

Coisa mais ridícula!

Vou me recompor. Manter a classe. Por que eu iria me incomodar. Por ele olhar para uma loura. Uma. Não. Duas. São duas louras. Ele está olhando para as duas. Isso é que é olhar bem dividido. E eu nem queria notar. Nem ligo para essas coisas. Vivo dizendo que cada um sabe o que faz. Ou o que olha.

Vou cuidar de comer meu frango frito. Foi para isso que viemos. Melhor mudar de pensamento. E de observação.
Acabo de lembrar. De vez em quando tenho que dar atenção a um frango.

Uma vez era um frango cru que precisava ser cozido.
Agora é a um frango frito que está pronto para ser comido.
Vou é comer com as unhas. O frango? Não. Ele.

Ele que continua passando olhares furtivos. Para as louras.

Pensa que não estou vendo.

Vou continuar falando sobre o assunto mais que interessante que surgiu agora: por que salvar as tartarugas.

Queria mesmo era uma tartaruga marinha. Das gigantes do tempo de Darwin. Para tacar na cabeça dele. Agora.
Não vou mais detestar tartarugas.
Surgiu uma finalidade para elas sobreviverem. Vou me associar àquele tal projeto. De adotar uma tartaruga. Vou adotar muitas.

Ele está tão bonito. O cabelo com os fios brancos. Contrastando com a camisa azul-escuro. Há um colorido tão iluminado no rosto dele. E ainda tem o olhar verde. Ele não tem olhos verdes. Tem o olhar verde. Tão bonito. Os gestos fortes.

Veio porque me achou triste. Ele é tão atuante. Fala pouco sobre o que faz. Age. Ele sabe como associar delicadeza à parceria. Se preocupa e age. Ele é modesto para auto-nomear os gestos de atenção. Não cobra nem aponta. Na forma carinhosa de lidar com quem gosta ele é esbanjador. Porém discreto.

Mas não se pode mesmo ter um pensamento afetuoso. Nem uma ponta de lucidez em meio à paranóia. Olha só o que ele fez. Olhou de novo para as tais louras.

Agora ele viu que eu estava percebendo. Sorriu. Sorriu para mim. Sabe bem o que eu estou pensando. E sorriu solto. Vivo repetindo que ele nunca me erra. E eu vivia dizendo que eu era invisível. Ele me vê mais que eu mesma. Como ele me disse dia desses. Com uma pontinha de aborrecimento. Ofendido. Como assim, não me via? Respondeu sério. Não me via e me sabia de cor. Que delícia de escuta.

Pronto. Agora resolveu brincar em cima do ocorrido.
Mas eu não lhe disse uma só palavra. Você que está falando de louras. Como assim me conhece. Eu estou calada. Imagino.

Eu ciumenta?

Nunca.

Estou mesmo. Encontrei quem tanto quis. Ando até escutando sininhos. Como nos filmes de Hollywood. Não abro mão dele fácil.

Posso abrir a mão é em cima dele. Isso sim. Se ele continuar olhando para as louras.
Ele sabe me ganhar. E ele sorri das minhas pequenas histerias. E olha que hoje quase vira uma grande histeria.
Vai que eu resolvo chutar o frango. E correr para o carro.
Ri.

Que pensamento mais pesado. Agressivo.
Não faria isso. Com o frango, claro.
Ri de novo.

Às vezes penso que estou sob teste. Ele estica o limite. Estica e eu ali. Ele me faz sentir que sou.
Poderia até alterar o que o filosofo disse. Nada de penso, logo existo.
Sou vista, logo - existo.
Lembrei de uma foto.
Eu não apareço no retrato. Na literalidade. Estou ao lado dele. Atrás de alguém. Mas sei que estou ali. Apareço porque o olhar dele está em minha direção. São muitos na foto. Todos olham para o fotógrafo. Só ele olha para mim. E a minha imagem não está no quadradinho. Fantástico. Me faço presente pelo olhar dele. Prescindindo do olhar voyeurista do fotógrafo para me saber fazendo parte.

Não vou dizer isso a ele. Quando ele ri porque está fazendo pirracinhas fica mais bonito ainda. Agora mesmo está tão bonito. Um riso tão aberto e enviesado. Riso enviesado é a definição certa. Exata. Do modo que ele está rindo para mim. E ainda tem aquelas ruguinhas em volta dos olhos.
E tem o olhar verde.

Verde quem está ficando sou eu. Inteira verde. Ódio verde.
Ele agora está se divertindo às minhas custas. E não consigo fingir.

Preciso reler o texto do austríaco. Sobre o ciúme. Não. Melhor deixar o austríaco fora disso. Acho mais conveniente ler sobre frango.
Ou escrever sobre como fazer um frango frito pegar fogo na mesa.
Piromagia. Essa deve ser uma terminologia bem nova.
Tão nova quanto esta minha fase.
Não tenho mesmo poderes mágicos. Senão muito mais estaria frito aqui alem do frango.

Pior mesmo sou eu estar rindo de mim mesma. Rindo para ele que ri de mim. Nós dois rindo de mim. Inacreditável.
Até o frango parece estar também rindo de mim.
Lógico. A única frita aqui sou eu.

Mania que tenho de noticia de Jornal. Ele sempre se divertiu com estas minhas matérias ocultas. Mas daria uma boa notícia: mulher acompanhada por um homem sorridente frita na mesa. E diante de um frango e de duas louras. Motivo aparente: ciúme vulgar.

Não. Teria que mudar o adjetivo. Ele disse que nada em mim é vulgar.
Adoro quando ele me diz isso.

Mas que dá vontade de fritar o restaurante todo, lá isso dá.

Sim, meu amor, vamos. Você dirige. Claro. Eu não sei o caminho. O frango frito. Sim. Estava uma delicia. Não. Louras? Tinha alguma loura lá? Não percebi.

Falei nada. Só você que falou. Você quem disse. Que elas eram louras. Meu olhar? Que tem meu olhar? Do que você está rindo?

Acho melhor mudarmos nosso cardápio para - peixe.

Erro Geométrico

Nem acredito no que estou vendo!
Não é que é ele ali?

Nunca venho aqui e justo hoje tivemos que vir os dois. E ainda tem esta fila que não anda. Nem a minha nem a dele.

Queria saber mais geometria. Estamos num paralelo ou numa perpendicular? Já esqueci disso tudo. Também vê se isso é lá pensamento para me deter. Pior é encontrá-lo aqui, assim, ao vivo e de corpo inteiro. Sempre o vi pela metade.

Será que o mundo foi construído no tempo em quem um caixa digitava as compras?

E pensar que nem Roma foi construída em um dia! Devia ter caixa e computador lá também. E duas, provavelmente.

Ele continua olhando. Será que me reconheceu ou está pensando que sou outra pessoa? Ou pensando que sou outra e se também vizinha dele?

Deve ter mais vizinhas que ele fica olhando, afinal, tem que revezar o turno e as pessoas.

Todos trabalham, acho que só ele não.

Será que aquela senhora vai demorar muito retirando as compras do carrinho? Talvez eu devesse ir ajudá-la, mas vai lá que ele pensa que eu estou desfilando para ele.

Deve ter mil taras, sempre soube que uma tara puxa outra.

Ainda bem que aqui está bem cheio de gente, se ele se atreve a alguma coisa dou um escândalo.

Ele iria adorar se soubesse que enfim eu dei um escândalo por me sentir ameaçada.

Mas será que eu daria mesmo? Acho que as ameaças acabam por me paralisar. Belo diagnóstico: ela sofre de paralisia de ameaça. Ridícula mesmo eu. Na minha idade e com uma paralisia destas. Devia era me envergonhar.

Ele está olhando de novo, agora sinto o olhar em meu cabelo. Que vontade de passar a mão na cabeça, mas ele vai achar que estou sabendo para onde ele está olhando. Tenho mania de pegar meu cabelo. Desde pequena faço isso.

Ele tem razão quando fala que não cresci.

É verdade. Ou cresci conservando o que não devia. As manias, os medos.

Queria que ele estivesse aqui comigo, mas ele não viria, não quer que sejamos vistos fazendo compras como casal casado. Mas bem que eu gostaria de mostrar a ele o tal vizinho.

Essa fila parece que vai durar a vida toda. Ele está agora bem atras de mim, acho que de uma perpendicular...ou seria uma diagonal? De nada adiantou estudar tanta geometria, numa emergência de descrição, sumiu tudo. Quem mandou aquela moça desistir do lugar?

Agora sim, estamos mesmo perto.

Será que tem algo de errado com meu sapato?
Ou será que a outra tara dele é podofilia?

Será que não tem gerente aqui? Alguém tem que vir ver o que se passa com este computador. Será mesmo tão difícil vencer de uma máquina?

Então ele gosta de comer saladas, não é? Só tem salada naquele carrinho, parece a selva. Deve ser para não engordar e não cair da janela.

Quase ri agora pensando nele gordo se espremendo na janela para olhar a vizinhança.

Sim, porque agora tenho certeza de que ele faz isso com toda a vizinhança.
É um tarado público. Um tarado com olhar promíscuo.
Pronto, agora ri mesmo.
Ele nem vai acreditar quando eu contar que fiquei tão perto do vizinho. Pior que vai me perguntar como o reconheci tão rápido se é ele quem me olha e não eu para ele. Agora ele está ficando meio ciumento. Ou finge, não sei. Ele é tão seguro.

Acho que vou desistir desta fila. Mas sempre tem aquela coisa de quando se troca de fila ela anda e a que vamos para. Ele agora está também olhando para o meu carrinho.
Vai pensar que sou alcoólatra, porque só tem bebidas. mas estavam na oferta e não quis perder, afinal o inverno está chegando.

Mas o que estou eu fazendo? Me explicando para ele em pensamento? Compro o que eu quiser e que cada um pense o que quiser.

Ele iria dizer que sou desaforada. Adoro quando ele me diz isso. Me sinto tão corajosa. Acho que ele fala para me estimular, ele bem sabe que sofro daquela paralisia que não quero repetir o nome nem em pensamento mais.

Até que enfim a fila começou a andar. A dele ainda não.
Ótimo, assim saio antes dele e desapareço. Ele não vai saber por onde vou. Que bobagem. Se ele sabe onde moro por que iria querer saber um simples roteiro de acesso?

Adorei meu Português agora. Preciso falar sempre assim.

Mas que azar o meu. Agora é ele que está na frente.
Pronto.
Ele já se vai agora.
Vou fingir que não vi que ele está olhando para trás.
Pronto.
Se foi.

Voltou. Voltou? Porque será que voltou?
Ah! Esqueceu um pacote. Está falando com a moça do caixa.
Ficou de frente para mim.
Me olhou. Devolvi um olhar bem sério.

Mas... não acredito no que estou vendo, todo esse tempo eu aqui indignada e:
o "vizinho" não é o vizinho!

Frango Frito

Melhor fingir que não estou vendo.

Quem sabe, não está mesmo acontecendo. Eu que ando insegura. Não desta vez. Não. Ele está olhando mesmo. Só me faltava essa agora. A esta altura da vida. Ser vigia do olhar dele.
Coisa mais ridícula!

Vou me recompor. Manter a classe. Por que eu iria me incomodar. Por ele olhar para uma loura. Uma. Não. Duas. São duas louras. Ele está olhando para as duas. Isso é que é olhar bem dividido. E eu nem queria notar. Nem ligo para essas coisas. Vivo dizendo que cada um sabe o que faz. Ou o que olha.

Vou cuidar de comer meu frango frito. Foi para isso que viemos. Melhor mudar de pensamento. E de observação.

Acabo de lembrar. De vez em quando tenho que dar atenção a um frango.

Uma vez era um frango cru que precisava ser cozido.
Agora é a um frango frito que está pronto para ser comido.
Vou é comer com as unhas. O frango? Não. Ele.
Ele que continua passando olhares furtivos. Para as louras.

Pensa que não estou vendo.

Vou continuar falando sobre o assunto mais que interessante que surgiu agora: por que salvar as tartarugas.
Queria mesmo era uma tartaruga marinha. Das gigantes do tempo de Darwin. Para tacar na cabeça dele. Agora.
Não vou mais detestar tartarugas.
Surgiu uma finalidade para elas sobreviverem. Vou me associar àquele tal projeto. De adotar uma tartaruga. Vou adotar muitas.

Ele está tão bonito. O cabelo com os fios brancos. Contrastando com a camisa azul-escuro. Há um colorido tão iluminado no rosto dele. E ainda tem o olhar verde. Ele não tem olhos verdes. Tem o olhar verde. Tão bonito. Os gestos fortes.
Veio porque me achou triste. Ele é tão atuante. Fala pouco sobre o que faz. Age. Ele sabe como associar delicadeza à parceria. Se preocupa e age. Ele é modesto para auto-nomear os gestos de atenção. Não cobra nem aponta. Na forma carinhosa de lidar com quem gosta ele é esbanjador. Porém discreto.

Mas não se pode mesmo ter um pensamento afetuoso. Nem uma ponta de lucidez em meio à paranóia. Olha só o que ele fez. Olhou de novo para as tais louras.
Agora ele viu que eu estava percebendo. Sorriu. Sorriu para mim. Sabe bem o que eu estou pensando. E sorriu solto. Vivo repetindo que ele nunca me erra. E eu vivia dizendo que eu era invisível. Ele me vê mais que eu mesma. Como ele me disse dia desses. Com uma pontinha de aborrecimento. Ofendido. Como assim, não me via? Respondeu sério. Não me via e me sabia de cor. Que delícia de escuta.

Pronto. Agora resolveu brincar em cima do ocorrido.

Mas eu não lhe disse uma só palavra. Você que está falando de louras. Como assim me conhece. Eu estou calada. Imagino.
Eu ciumenta?
Nunca.

Estou mesmo. Encontrei quem tanto quis. Ando até escutando sininhos. Como nos filmes de Hollywood. Não abro mão dele fácil.
Posso abrir a mão é em cima dele. Isso sim. Se ele continuar olhando para as louras.

Ele sabe me ganhar. E ele sorri das minhas pequenas histerias. E olha que hoje quase vira uma grande histeria.

Vai que eu resolvo chutar o frango. E correr para o carro.
Ri.
Que pensamento mais pesado. Agressivo.
Não faria isso. Com o frango, claro.
Ri de novo.

Às vezes penso que estou sob teste. Ele estica o limite. Estica e eu ali. Ele me faz sentir que sou.
Poderia até alterar o que o filosofo disse. Nada de penso, logo existo.
Sou vista, logo - existo.
Lembrei de uma foto.
Eu não apareço no retrato. Na literalidade. Estou ao lado dele. Atrás de alguém. Mas sei que estou ali. Apareço porque o olhar dele está em minha direção. São muitos na foto. Todos olham para o fotógrafo. Só ele olha para mim. E a minha imagem não está no quadradinho. Fantástico. Me faço presente pelo olhar dele. Prescindindo do olhar voyeurista do fotógrafo para me saber fazendo parte.

Não vou dizer isso a ele. Quando ele ri porque está fazendo pirracinhas fica mais bonito ainda. Agora mesmo está tão bonito. Um riso tão aberto e enviesado. Riso enviesado é a definição certa. Exata. Do modo que ele está rindo para mim. E ainda tem aquelas ruguinhas em volta dos olhos.
E tem o olhar verde.

Verde quem está ficando sou eu. Inteira verde. Ódio verde.
Ele agora está se divertindo às minhas custas. E não consigo fingir.

Preciso reler o texto do austríaco. Sobre o ciúme. Não. Melhor deixar o austríaco fora disso. Acho mais conveniente ler sobre frango.
Ou escrever sobre como fazer um frango frito pegar fogo na mesa.
Piromagia. Essa deve ser uma terminologia bem nova.
Tão nova quanto esta minha fase.
Não tenho mesmo poderes mágicos. Senão muito mais estaria frito aqui alem do frango.

Pior mesmo sou eu estar rindo de mim mesma. Rindo para ele que ri de mim. Nós dois rindo de mim. Inacreditável.
Até o frango parece estar também rindo de mim.
Lógico. A única frita aqui sou eu.

Mania que tenho de noticia de Jornal. Ele sempre se divertiu com estas minhas matérias ocultas. Mas daria uma boa notícia: mulher acompanhada por um homem sorridente frita na mesa. E diante de um frango e de duas louras. Motivo aparente: ciúme vulgar.
Não. Teria que mudar o adjetivo. Ele disse que nada em mim é vulgar.
Adoro quando ele me diz isso.

Mas que dá vontade de fritar o restaurante todo, lá isso dá.

Sim, meu amor, vamos. Você dirige. Claro. Eu não sei o caminho. O frango frito. Sim. Estava uma delicia. Não. Louras? Tinha alguma loura lá? Não percebi.
Falei nada. Só você que falou. Você quem disse. Que elas eram louras. Meu olhar? Que tem meu olhar? Do que você está rindo?

Acho melhor mudarmos nosso cardápio para - peixe.

Os Números da Gravidade

Tomei a decisão de uma sentada só. Vou sim. Vou fazer uma reforma radical. Facial.
Indicaram um cirurgião, daqueles que só se vê em cinema, quero dizer, que são para as atrizes de cinema. Famoso. Excelente. Respeitado. Acho que até condecorado.
Coragem. Agendei.

Lá estava eu sentadinha na sala de espera. Tinha planejado ir bem arrumada, salto alto, blazer, tudo que dá o toque mágico e acesso direto para sentar num lugar daqueles.

Não deu certo. O trânsito emperrou, o tempo voou e lá se fui do jeito que estava trabalhando. Com a realidade explicitamente estampada na face e na roupa.

Após me identificar arrumei um lugarzinho mais discreto a aguardar o chamado.

Já me senti, de imediato, diante de um possível chamado divino, tamanha a imponência do lugar. Melhor até dizer Lugar. Ali nada cabia em minúscula. E quase ri quando pensei nisso.

Em minha direção caminhava uma mulher alta, formas voluptuosas, como diriam os italianos caso a vissem, com uma calça justa preta, uma bota de salto alto, uma blusa também preta, curta, com um decote que ratificava a correção do meu pensamento anterior. Nada ali era para ser citado em minúsculo.

Olhei para ela enquanto ela escolhia um lugar, digo, Lugar. E bem ao meu lado. Pensei cá comigo: mas com tanto espaço por que eu teria que servir de contraste. Mas tudo bem . Passou. Foi só um pensamento fugidio.
Aliás - eu deveria ter agido igual ao pensamento e ser eu a fugidia. Muito mais me esperava. Bom.

Retomando. Ao meu lado sentou-se a mulher alta. Os cabelos longos, alguns fios cobre, franja. Mudou de idéia. Levantou-se e foi até uma maquina de cafezinho. Voltou. Era um novo tipo de mulher. Mulher atual. Lábios grossos - preenchidos. Glúteos erguidos - reforçados. Peitos mais erguidos ainda -complementados. Pele facial hirta - paralisada.
Atendeu o celular. Notei que havia um esgar lateral mais forte do lado direito. Ela se esforçava, acho eu, na adaptação do novo e provavelmente invejado, preenchimento labial. Fosse a minha avó viva chamaria logo de beiçola e estava resolvido o assunto. Mas esta palavra também não cabia num Lugar como aquele.

Percebi que ela me olhou e olhou para o outro lado dela. Daí notei que tinha uma outra mulher sentada. Esta sim, com proporções bem expansivas, sem nenhuma avareza em termos de dobras por sobre a calça que usava. Tentava disfarçar com uma blusa preta e mais solta. Mas o tecido foi mais avaro que as formas e muito ficou exposto. Parecia um pouco tranqüila até que, também, olhou para a mulher de cabelos com fios de cobre e em maiúsculas distribuidas pelo corpo - tentou se ajeitar melhor na cadeira. Me pareceu que queria sumir. Difícil.

A mulher dos cabelos de cobre que minha avó teria praticado a desfeita terminológica, após olhar para um lado e outro, (entenda-se a moça das sobras de um lado e eu que era só faltas do outro) deu um sorriso tranqüilo e feliz. Estava maravilhosa. Sentada, com a coluna ereta, desconsiderou um encosto bem alcochoado do sofá de couro e abriu um livro. Vi o titulo. Procedia.

Olhei para a minha frente. Lá estava sentada uma outra moça magrinha, com o rosto recoberto por uma pasta branca. Pensei. Esta será responsável por muitas noites minhas de insônia. Me auto-recriminei. Não se faz assim com quem está muito mais disposto que exposto. Ou vice-versa. Bom, melhor pular esta parte.

De repente escuto meu nome.

Era chegada a minha vez. Uma mocinha sorridente me orientava o caminho. Lembrei da letra de uma música antiga. Algo como "talvez a derradeira noite de luar". Pensei tudo isso em segundos. Subi as escadas e fui atender ao tal chamado divino que até meu nome já sabia.

Diante deste novo Deus, que modifica o que o outro insistiu em fazer, e que recria sem quebrar costelas nem multiplicar pães, me sentei. Falei o que me incomodava.

Modesta eu.

Porque ele foi rápido e me perguntou, olhando o meu rosto com a avidez de um tomógrafo, se ali, e lá e mais aquilo e mais isso não me incomodavam. Me vi diante de um rosto que não podia ser o meu. Não me vi diante porque sequer me arrisquei a me olhar. Melhor dizer que me imaginei. Levantou. Eu o segui com o olhar. Era alto, elegante, mas o que mais me chamou a atenção foram os sapatos. Belos. Só me distrai dos sapatos porque notei a testa. Fronte lisa. Como se diria isso em latim, pensei. Porque a testa dele merecia uma citação em Latim. Ou Grego. Na impossibilidade desta tradução me contive e me detive, ou me abstive de qualquer comentário. Não importa. Importa que, apenas com o olhar, ele já havia me desfeito e me refeito. E eu mal me sentara diante dele.

Foi incisivo. Nada de cosméticos mais resolveria. Ousei citar um outro método também utilizado. Quase riu.

De nada adiantaria. Era cirúrgica a questão. E nada de poupar áreas. Todas estavam comprometidas. E muito. A gravidade cumprira muito bem seu propósito. Teria salvação. Mas só com a reconstrução.

Pegou um papel, fez contas, anotou números e me entregou. E me deu um conselho. Passe a noite olhando para o seu rosto.

Olhei para o dele. Olhei para os olhos, para a testa sem citação em Latim nem Grego, e para os sapatos dei só uma passadinha de leve. E respondi.

Se passar noite olhando para o meu rosto, pela manhã troco de especialista. Procuro um psiquiatra.

Agradeci. Sorri. Desci. Olhei a sala. Os pacientes.
Era um novo planeta. Um novo Deus. Criador e criaturas ao alcance de um papel com números. Este dava um papelzinho com números. O Outro podia até ter errado, mas ao menos não me deu um papelzinho. Talvez mais sábio. Vai lá saber o que pode fazer um insatisfeito.

Decidi. Ainda não. Por enquanto vou ficar no mesmo planeta. Vou recorrer as alternativas. Lembrei da amiga que me disse um dia que eu adoro alternativas. Estava certa. Está certa.

Quem sabe daqui a alguns anos - se a gravidade me permitir ao menos enxergar.
Sorri.

Joguei o papel fora e voltei para casa. Não sei se triste, resignada ou feliz. É preciso um tempo maior que uma noite para se saber. Mas, pelo menos voltei sem a tal aconselhada tarefa noturna.

Brindei às habituais.

O Dito Por Não Lido

Desisti de evitar sustos. Nada resolve. Susto é parte integrante da vida. Só não toma quem já não faz mais parte dela. Ou o faz em outro nível. Mas nunca soube de algum relato. Se lá também se toma susto. Enfim. Susto é vida. Nada mais a acrescentar. Diriam os pragmáticos.

Fiquei assustada com a Palavra. Assim. Sem mais nem menos. Descobri o quanto a Palavra assusta. A congelada. A pretenciosa. A despretenciosa. A que tem entonação. Esta principalmente. Porque a entonação real é de quem escuta. De quem lê. Jamais de quem fala. Ou de quem escreve. Quem fala ou escreve está sempre do outro lado. Não sei qual. Mas de um outro lado.

Agora me lembrei dele. Tinha razão. Nada de colocar exclamação em poesia. Isso o outro quem faz. Correto. Corretíssimo. Quem escreve o faz à mercê. De quem lê. Isso faz da Palavra um objeto duplo. De desejo e de temor. De quem gosta e de quem não gosta. Pode-se dar qualquer entonação. Pode-se até sentir proprietário da tal entonação. Mas nada. É coisa de locação. É dono só pela metade. Pela emissão. A posse é realmente do outro. Pela omissão.

Há um poder em uma Palavra e em sua entonação. No ouvido alheio. Na estrutura alheia. Nas mágoas alheias. Pode dar em sim. Pode dar em não. Pode até justificar um nunca pensei. Nem acreditei. Um apavoramento - estou pasma. Um extremo - estou saindo. Um chorado - adeus. Um aliviado - nunca mais. Um sorridente - adorei. Toda uma situação nova pode ser construída e reconstruída. E até muitos divãs preenchidos. De entonações. Se sobrepondo. Cada um jurando. Temendo. Se desculpando. Acusando. Até sofrendo. Mas afirmando. O erro é do outro. A Palavra foi dita assim. E defender em causa própria. Não existe isso nas Palavras. Não existe causa própria.

Falam. Gritam. Num festival de entonações. Ninguém mais sabe quem falou. Ou quem gritou. Nem por que. E acabam por desviar a atenção. Do objeto inicial. Como se a vida também corresse desta forma. Num estilo comissários-passageiros. No ar. Todos sempre tentando tirar um cinto da segurança. Para que possam correr atrás da Palavra sem segurança. Procede. É pela Palavra que surge a insegurança. Mas é nela que todos se seguram. Para se defender. Paradoxal e cruel.

Assim é a Língua. Feita para construir. Para compartilhar. Mas sempre presa naquela praga. Da torre mítica.

Nada a fazer. Com a Palavra mal soada. Ouvidos são - sempre - egóicos.

Chorar não dá ritmo. Rir não dá bemol. Desconsiderar sim, pode dar em orquestra. Cada um e seu tom. Usando o seu instrumento da forma aprendida. Ensinada. Seguindo a sequência. Mas vai sempre acontecer um desafino. Um destoado. Mesmo que muito se ensaie. Nada poupa a Palavra dita. Não tem batuta que a oriente nas partituras da emoção. Nem dó de peito. Nem peito com dó. Cada um vai ter seu mestre. Sua maestria. Sua singularidade. Depositário das suas queixas. Das suas dores. Dos seus preconceitos. Das suas lembranças.

Lembro da minha avó. Não havia um dia que não repetisse. Pensa mais e fala menos, menina, pensa mais e fala menos. Sábia. Porque não há saída.

A Palavra fica ali. Na ilusão de cada um. Do que foi claro - explícito. Do que restou dúvida - implícito. Como se algo pudesse ser evitado. Se não hoje, se não amanhã. Dentro da complexa realização do que se diz. No até que a morte separe. Ou no que disse está dito. No eu falei primeiro. O que não faltam são frases falso-elucidativas. Palavra de honra. Escreva o que digo.

Sem esquecer os mais crédulos. Avisam com voz segura. Entonação de força. Assino embaixo do que falou.

Nesta roda de letras se diferenciam homens e animais. Na natureza. Um tem a Palavra. Outro tem o instinto. Um a buscar "insatisfazer" as demandas. O outro a atender as necessidades. E cada um girando em volta da sobrevivência. Com ou sem Palavras. Como num grito de vôo com provérbios.

A Palavra sob Palavra. Como um pudor às avessas. E às pressas. Arriscada. Desafiada. Tentada. Com toda uma ética envolvida e constantemente burlada. Com gramática e sintaxe. Acentos e fórmulas. Por tudo isso - e para tudo isso - sempre surpreendente. Cercada de sustos e incoerências.